Você sabia que, enquanto caminha de chinelos pela orla da Praia do Forte, está pisando em um solo disputado por franceses, holandeses e portugueses durante séculos?
Muitos visitantes olham para Cabo Frio ontem e hoje e veem apenas o mar azul e a modernidade dos quiosques. Mas a verdade é que esta cidade não nasceu ontem. Fundada em 1615, ela é a sétima cidade mais antiga do Brasil.
A “Cidade do Sol” já foi a “Cidade do Pau-Brasil” e a “Cidade do Sal”. Suas dunas testemunharam guerras sangrentas e suas águas viram nascer o primeiro feitoria comercial do país.
Neste artigo especial, convidamos você a tirar os óculos de sol por um momento e colocar os óculos da história. Vamos fazer um passeio rápido (e fascinante) pelo passado para que você entenda a alma de Cabo Frio.
Acredite: depois de ler isso, seu passeio pelo Bairro da Passagem ou pelo Forte São Mateus nunca mais será o mesmo.
1503: O Italiano, o Pau-Brasil e o Nome da Cidade
Tudo começou muito antes da fundação oficial. Em 1503, o navegador Américo Vespúcio (sim, o homem que deu nome à América) aportou aqui. Sua expedição não buscava praias bonitas, mas riquezas.
O que eles encontraram? Uma madeira que tingia tecidos de vermelho vivo: o Pau-Brasil.
Curiosidade: Por que o nome “Cabo Frio”?
Os marinheiros notaram que, ao passar por esta ponta do continente, a temperatura da água caía drasticamente e os ventos mudavam (o famoso fenômeno da ressurgência que explicamos no guia de Mitos e Verdades). Nos mapas de navegação, o local foi marcado como um “Cabo Frio”. O apelido pegou e virou identidade.
A Primeira Feitoria
Foi aqui que se construiu a primeira feitoria (posto comercial fortificado) do Brasil para armazenar o Pau-Brasil antes de enviá-lo à Europa. Cabo Frio já nasceu como um hub de exportação.
Invasões Piratas e a Construção da Fortaleza
A riqueza atrai a cobiça. Durante o século XVI e XVII, franceses, ingleses e holandeses tentaram tomar a região. Eles faziam alianças com os índios Tamoios (os verdadeiros donos da terra) para contrabandear a madeira.
Para dizer “isso aqui é nosso”, a Coroa Portuguesa decidiu fortificar a costa.
Assim nasceu o Forte São Mateus. Construído entre 1616 e 1620, ele não é apenas um cenário para fotos. Ele é uma máquina de guerra do século XVII.
- A Engenharia: As pedras foram unidas com uma argamassa feita de cal (de conchas moídas) e óleo de baleia. Sim, as paredes que você toca hoje estão de pé graças à gordura das baleias que eram caçadas na costa.
- Os Canhões: As peças de artilharia que ainda apontam para o mar não são réplicas. São os guardiões originais que defenderam a Boca da Barra contra navios inimigos.

As sentinelas do Forte: Canhões que protegeram Cabo Frio ontem e hoje enfeitam a paisagem.
O Bairro da Passagem: O Berço Urbano
Enquanto o Forte protegia a entrada do mar, a vida acontecia no Bairro da Passagem.
Fundado também no início do século XVII, foi o primeiro núcleo urbano da cidade. O nome “Passagem” é literal: era o ponto onde se atravessava pessoas e mercadorias pelo Canal do Itajuru.

Hoje, quando você janta em um restaurante charmoso na Passagem, repare nas ruas estreitas de paralelepípedo e na arquitetura colonial.
- Igreja de São Benedito: Construída no século XVIII, era o refúgio espiritual dos escravizados. O largo em frente à igreja, onde hoje acontecem shows de jazz e MPB, era o centro comunitário da época.
A Evolução: Comparar Cabo Frio ontem e hoje na Passagem é ver como a história se reinventou. Os armazéns de pesca viraram pousadas boutique; as casas de pescadores viraram ateliês. Mas a alma boêmia e acolhedora permanece intacta.
O Ouro Branco: O Ciclo do Sal
Se no início a riqueza era vermelha (madeira), nos séculos seguintes ela se tornou branca.
A Lagoa de Araruama, com sua alta salinidade e sol constante, transformou a Região dos Lagos na maior produtora de sal do Brasil.
No século XIX e XX, Cabo Frio era movida a sal. Moinhos de vento (para bombear água) dominavam a paisagem. Famílias inteiras construíram fortunas com as salinas.
- O “Anjo Caído”: Você já viu a estátua inclinada no Canal do Itajuru? Ela é o monumento à vitória da abertura do canal artificial que facilitou o escoamento do sal. Com o tempo e a erosão das marés, a coluna cedeu, criando o famoso “Anjo Caído” – um símbolo acidental da força da natureza sobre a obra humana.
Hoje, as salinas industriais deram lugar ao turismo e à especulação imobiliária, mas a Casa do Sal (museu em São Pedro da Aldeia, vizinha próxima) e as ruínas de moinhos ainda contam essa história gloriosa.

O Ouro Branco: As salinas moldaram a economia e a geografia de Cabo Frio.
Cabo Frio Hoje: A História como Atração
Como essa rica tapeçaria do passado afeta sua viagem hoje?
Ela adiciona profundidade.
Cabo Frio não é uma cidade cenográfica criada para turistas. É uma cidade real, com cicatrizes e memórias.
- Turismo Religioso: A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção (1615) e o Convento de Nossa Senhora dos Anjos (1696) são paradas obrigatórias. O convento, no alto do Morro da Guia, oferece o pôr do sol mais bonito da cidade, unindo fé e natureza.
- A Identidade Caiçara: Nos bairros como a Gamboa e o Peró, você ainda encontra a cultura da pesca artesanal viva. O peixe que chega à sua mesa nos restaurantes é pescado por netos e bisnetos dos primeiros povoadores.
Valorize o Chão que Você Pisa
Ao visitar Cabo Frio ontem e hoje, você percebe que a cidade é um sobrevivente. Ela sobreviveu a piratas, a crises econômicas e cresceu para se tornar a capital turística da região.
Na sua próxima visita, faça um favor a si mesmo:
- Toque nas pedras do Forte e imagine o cheiro de pólvora.
- Caminhe pela Passagem e imagine as trocas de mercadorias no canal.
- Suba o Morro da Guia e agradeça pela vista que, há 400 anos, encanta quem chega aqui.
Cabo Frio é linda na foto, mas é ainda mais fascinante na história.
Gostou dessa viagem no tempo?
Agora que você já conhece o passado, é hora de voltar para o presente e evitar os problemas modernos. Você já leu nosso artigo sobre os 10 erros que os turistas cometem hoje? Não vire história (pelos motivos errados) na sua viagem!
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